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13/06/2007
11:02 Novo endereço de blog
Prezados, estou experimentando novo provedor de blog, o Word Press, que me permite personalizar certas coisas. Então, estou com este endereço:
http://monlover.wordpress.com/
Por enquanto, vou manter os dois. Wir Caetano | comentários(1
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13/06/2007
09:34 ELipSES
O amigo e ex-vizinho Flávio Boaventura e Vera Casanova lançam livro.
Clique na imagem abaixo para ampliá-la.
Wir Caetano | comentários(0
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08/06/2007
09:03 Subjetividade e arquivos
 Foto: aWee/Alex
No livro “Tempo do passado – Cultura da Memória e Guinada Subjetiva” (Editora UFMG/Companhia das Letras), a argentina Beatriz Sarlo, professora de literatura, tece críticas ao “exagero de subjetividade” na recuperação histórica, isto é, à tendência em se contar a história apenas com base em testemunhos.
Em entrevista ao jornalista João Pombo Barile, do jornal belo-horizontino “O Tempo”, em abril, ela disse, ao comentar sua obra: “O que quero dizer é que o sujeito não garante nenhuma verdade, simplesmente pelo fato de assegurar que o que narra é algo que a ele aconteceu”. E complementou: “Não é imprescindível atribuir-lhe [ao testemunho] uma verdade superior aos textos escritos, os documentos, as publicações em diários, os artigos ou os livros que formam parte do solo político cultural de um período”.
A reflexão de Beatriz me dá a deixa para me referir ao historiador Antonio Marques, coordenador do Centro de Documentação e Memória Sindical (Cedoc), da Central Única dos Trabalhadores (CUT), com quem estive aprendendo umas coisas em São Paulo (SP), na semana passada. Antônio Marques destacou a importância de se investir na organização de arquivos, quando se pretende preservar uma história. Em sua visão, projetos voltados apenas para dar relevo a uma memória em datas comemorativas tendem a morrer. É preciso cuidar dos documentos e administrá-los de forma a tornar perenes e de fácil acesso as fontes de pesquisas. O que ele não disse explicitamente, mas podemos depreender de sua fala e acrescentar é o seguinte: caso contrário, podemos ficar dependendo apenas de depoimentos que, com sua parcialidade, podem tanto contar quanto ocultar a história.
A cultura arquivística é um desafio que movimentos populares ainda enfrentam e precisam consolidá-la para não dependerem apenas da voz dos outros, daqueles que, muitas vezes, preferem, tão somente, divulgar a leitura imposta pela sua subjetividade. A historiadora Jaci Barleta, do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (Cedem -Unesp), com quem também conversei, citou o caso de um movimento social que, na avaliação dela, é o mais organizado do país, mas, por outro lado, lhe falta o cuidado com a preservação de seus documentos. A conseqüência pode ser a armadilha da subjetividade. A própria e a dos outros.
Wir Caetano | comentários(3
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07/06/2007
11:12 'ALUGO MEU CORPO'

Hoje, feriado, recebi de Paula Lee, "amante profissional" brasileira que vive em Portugal e que admiro, o seguinte email: "Olá, querido, boa noite, como vai? O meu livro, depois de um ano de batalha, estará nas livrarias aqui em Portugal no dia 08. Não podia deixar de dividir essa felicidade com as pessoas que sempre foram tão queridas e especiais para mim. Espero que curta bastante o feriado. Beijinhos,Paula Lee."
Para saber mais sobre o livro, acesse:
http://alugomeucorpo.com
http://www.amanteprofissional.com
http://www.amanteprofissional.com/blog
Reproduzo abaixo o que Elizabety Buttlerfly, que também curto demais pela inteligência elegante, disse sobre Paula e o livro:
"Tem o título 'Alugo o meu corpo', e vai estar disponível ao público já no próximo dia 8 de Junho, sob chancela da Editora D. Quixote. “Alugo o meu corpo” é o primeiro livro de Paula Lee, a brasileira radicada em Portugal, que escolheu o acompanhamento como actividade profissional. Paula Lee é ainda sobejamente conhecida pela autoria do blog “Amante Profissional”.
Sempre aqui manifestei renitência quanto às publicações de livros de acompanhantes. Tive em consideração o tipo de conteúdo que escolheram, que me pareceu vir dignificar muito pouco as profissionais aos olhos da sociedade em geral. No caso de Paula Lee, a perspectiva é porém bastante diferente. Em primeiro lugar porque sobressai daquilo que escreve sobre os seus encontros uma perspectiva profundamente humana, que acaba por retratar a profissional como uma mulher de princípios, preocupada com os outros, e interessada na companhia muito mais do que simplesmente nos serviços sexuais.
No entanto, o livro de Paula Lee é inovador também, porque se trata do primeiro romance publicado por uma acompanhante em Portugal, e não apenas de uma série de relatos ocorridos com supostos clientes. Obviamente, qualquer pessoa se move por simpatias. Não só, mas também. A minha pela Paula é já conhecida. Por todas as razões, e essa também, não podia deixar de a apoiar numa hora feliz, que por certo lhe é merecida. Parabéns Paula!"
Wir Caetano | comentários(0
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31/05/2007
21:15 'CÁ DO MUNDO'
No momento em que escrevi este "post", fazia umas três horas que eu havia desembarcado em Monlevade (embora o texto só esteja indo ao ar agora), depois de uma visita técnica a três centros de documentação, informação e memória, na capital paulista. Apesar de choro de crianças e poltronas desconfortáveis, o percurso de volta até que foi bastante agradável, graças ao auxílio luxuoso de quem estava ao meu lado, uma paulistana que cursa letras na França e me disse ter projetos de fazer jornalismo depois.
Minha intenção, ao chegar efetivamente à cidade e me sentar em frente ao computador, era, a princípio, discorrer sobre reflexões que a viagem propiciou, mas o cansaço e o tempo escasso para fechamento da edição empurraram a empreitada para mais adiante.
Então, deixo aqui um poema que nada tem a ver com os temas que povoaram meu cérebro em São Paulo, mas tematiza, de forma irônica, com referências a poetas canonizados no mundo todo, uma questão que já tratei neste espaço, ou, pelo menos, insinuei: a nossa condição periférica e os desafios que esse cenário de personagens das modernidades tardias joga na nossa cara.
Cá do Mundo
Keats era inglês Yeats era irlandês De qual Europa vocês?
Valéry era francês Dylan Thomas galês De qual Europa vocês?
P. N. Van Eyck holandês Sá-Carneiro português De qual Europa vocês?
Bashô era japonês Li Shangyin era chinês De qual planeta vocês?
Wir Caetano | comentários(0
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23/05/2007
11:41 Buttlerfly
Elisabeth Butterfly vive em Portugal e é uma "escort independente", isto é, uma acompanhante (para serviços afetivos e sexuais). Mas não é isso o que interessa, aqui. O que interessa é que ela mantém um site muito bacana, dedicado a suas afinidades eletivas em imagens e música. Clique aqui e confira.
Também o blog dela é muito bom. Butterfly escreve bacana. Veja. Wir Caetano | comentários(0
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18/05/2007
10:46 No meu planeta a gente é assim mesmo
Clique aqui para conferir.
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17/05/2007
13:08 Redes
 Desenho: Eurritmia - licença cc
A poeta e pesquisadora Leila Miccolis, carioca, é uma das convidadas para o Salão do Livro & Encontro de Literatura de Belo Horizonte, em agosto. Leila é representante da chamada “poesia alternativa” e da “imprensa nanica” (pequenos jornais que exerceram oposição à ditadura militar e à censura), nos anos 70 principalmente. É “editora, professora de roteiro de televisão, promotora cultural e artista performática”, conforme definição no site do “Jornal de Poesia”. Será entrevistada pelo jornalista Regis Gonçalves.
Se eu fosse fazer uma pergunta a ela, que conheci há muitos anos, em Belo Horizonte, colocaria em pauta a questão das redes. Seguinte: na década de 70, os poetas, decididos a levar a poesia pras ruas e pro cidadão comum, investiram nas mais diversas modalidades de eventos públicos: varais de poesia, saraus em praças, leituras (às vezes, malucas) em bares. Essa enxurrada de coisas acabou por propiciar uma permanente troca de figurinhas (como falávamos na época, pelo menos) entre poetas. Mas os caras exercitavam, também, uma grande troca de correspondência, à base de papel, caneta ou máquina datilográfica e selo, naquela pré-história em que email era apenas um vírus incubado na cabeça de algum gênio da informática.
A palavra “redes”, portanto, representava um conceito que estava concretamente ali, naquele povo todo trocando experiências, bem antes da febre da Internet.
Cabe, aqui, lembrar um artigo de Sonia Aguiar, professora aposentada da Universidade Federal Fluminense (UFF), publicado no portal do Ibase em março deste ano, em que ela diz: “redes sociais são formas de sociabilidade e de socialização de informação e conhecimento que começaram a ser estudadas há mais de 75 anos – bem antes de as tecnologias de informação e comunicação (TICs) assumirem papel significativo na intermediação das relações interpessoais e sociais”.
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10/05/2007
11:34 'O GAGO É A GAG'
Foto: Claudine Rodriguez
Um amigo meu, mestre em letras com dissertação sobre Machado de Assis, disse-me que pesquisadores já estão pondo em dúvida a informação de que o velho bruxo era gago. Eles não devem se sentir bem ao imaginar o mestre esbarrando nas palavras. A revelação de meu amigo me deixou um pouco mais sozinho no mundo. Cara, o Machado não era gago? Então, já não tenho essa charmosa muleta pra me consolar. É verdade que outros ícones poderiam cair bem, como Henry James.
No meu livro “Morte Porca”, o narrador de um dos textos – o narrador deve ser eu, mas os acadêmicos dizem que não é não; é só uma instância narrativa – faz referência ao problema de linguagem, ou melhor, de fala de James, mas explica que o genial norte-americano manifestava mesmo era uma certa hesitação, uma certa demora, digamos, quando se metia a falar. No livro, há um elogio irônico a essa hesitação, como se fosse um exercício de perfuração cuidadosa da complexidade do mundo.
Gago? Tem outros, claro. Mas deixe-me falar assim mesmo: da minha gagueira, não da dos outros. Sozinho. Sem as muletas de algum famoso registrado na história da humanidade.
A gagueira, pelo menos, me permite fazer esse trocadilho com o adjetivo nascido do corpo dela: gago/gag. Gags na minha vida há muitas.
(Continua depois)
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03/05/2007
21:49 Som dos imbecis?
 Foto: SMN - licença CC
Está em "Saudosismo", de Caetano Veloso: “E as notas dissonantes se integraram ao som dos imbecis”. Ele se referia à diluição da bossa nova, ou seja, ao fato de as harmonias da bossa acabarem por ser aproveitadas pela música mais paupérrima. Mais tarde, o próprio Caetano sairia em defesa do som dos imbecis, ao tentar legitimar muita produção musical, que, aos ouvidos do bom gosto, parece simplesmente lixo do lixo.
Mas há também o processo inverso ao da diluição da bossa nova, apontado por Luiz Tatit, quando o entrevistei, tempos atrás, sobre música “brega”. Tatit, compositor e professor de lingüística, não restringe o termo aos herdeiros dos “boleros de bordel”, como Amado Batista e Odair José. Para ele, “brega” perdeu a conotação negativa, e seus componentes estão presentes na obra de muita gente tida como boa, entre elas, Chico César e o grupo Skank, por exemplo.
Tatit entende o “brega” como o conjunto de três características, basicamente. No plano musical, o realce do melódico em contraposição ao rítmico. No plano da letra, o gosto pela boniteza, o lirismo epidérmico de expressões como “linda menina”. Já no aspecto da interpretação, a demora da voz em notas supostamente bonitas.
Essas características podem ser garimpadas em muitas canções de sucesso no mercado. Mesmo quando marcadas por alta fatura estética ou apuro técnico, costumam ter lá sua dose de essa-é-pra-tocar-no-rádio. Às vezes, inconscientemente; outras, intencionalmente.
Samuel Rosa, do Skank, disse que sua banda tem vocação para o rádio. Para ele, Radiohead é superbom, mas difícil, enquanto o Coldplay é bom (não superbom, talvez), mas fácil. Essa facilidade parece facilitar o caminho para o ouvido o povo.
“Fácil, extremamente fácil”. Brega, não?
Outros tempos Houve tempos em que a dificuldade parecia ser o alimento para a fome. Basta lembrar que o irlandês James Joyce, que passou parte de sua vida afundado em álcool, prostitutas de rua e grana dos amigos, chegou ao hall da fama com livros dificílimos, como “Ulisses” e “Finnegans Wake”. Aí, se livrou da grana dos amigos.
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30/04/2007
14:30 As pústulas do Senhor (II)
 Matthias Grünewald
(Fragmento de romance em gestação)
As possessões de Darléia vieram depois.
Mas, agora, no meu leito de morte, nesse quarto tão próximo à capela do hospital, gasto o meu tempo tentando registrar uns fiapos de coisas por aí.
1985. Naquele ano, cheguei a Belo Horizonte. “Vou comprar essa cidade”, eu dizia, bêbado, nas janelas dos bordéis, longe da rua Erê, no Prado, onde eu morava, numa pensão. Virei escriturário.
As visões de Darléia. É essa história que se impõe a mim, agora, neste instante, no leito.
1985. Era “Marvin” que tocava o tempo todo, nos corredores dos bordéis, minha obsessão. Acho que foi ouvindo “Marvin” que eu cairia na avenida Afonso Pensa, uma noite, sob efeito da ira e do absinto. Foi Rita Baiana quem enxugou o sangue do meu rosto, num bordel de Belô, para me devolver às moçoilas em flor, na rua Erê, no Prado.
As visões viriam depois. Os remédios também.
Com a cabeça apoiada na barriga branca e mole de Rita, eu rabiscava a minha obra. “Ora, nem Shakespeare disse ‘minha obra’ ”, diria o ouro-pretano Otávio Ramos, uma noite qualquer, longe da rua Erê, para espanto das moçoilas em flor.
Darléia. As visões, só depois.
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27/04/2007
11:41 Arquivos operários
 Foto: Mauricio Bustamante - licença CC
Clique aqui para conferir entrevista que fiz com o historiador Antonio Marques, para o Projeto Memória, do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de João Monlevade.
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19/04/2007
18:41 A inquietude do império e do quintal
Foto: Tiago Mambira - licença CC
"Bem, agora voltarão os formigueiros vivos, como castigo apache para aldeões que nos derem apoio e comida, cavalos velhos e informações nem sempre verídicas.”
O trecho acima não diz nada, não é mesmo? De propósito, peguei assim, ao léu, um fragmento de “Armada América” (W11 Editores, 2003), do pernambucano Fernando Monteiro, que ganhei dele mesmo, tempos atrás, e releio de vez em quando.
O livro traz o subtítulo “Relatos sobre a inquietude do império”. Os mais desavisados, no entanto, mesmo se conseguirem demorar os olhos nessas histórias de velhos pistoleiros do Texas e arredores, mafiosos toscos, gente sofisticada e hiperneurótica como Scott Fitzgerald ou engraçada e triste como Chaplin, podem se perguntar o que tudo isso tem a ver com a psicose que envolve o império (norte-americano, é claro) cotidianamente.
Se me perguntarem, vou ficar cá no meu canto, resumindo-me, quando muito, a sugerir outra leitura subterraneamente escondida por trás de “Armada América”. Trata-se de “História Universal da Infâmia”, de Jorge Luis Borges.
Tudo isso só para mostrar que, ao assistir à notícia de mais uma matança em escola dos Estados Unidos, por uma espécie de clone múltiplo de um assassino (como a dizer, bíblico: “meu nome é legião”), ou ao bang-bang caboclo da inquietude de nosso paupérrimo quintal do Hemisfério Sul, só me resta insistir que o resto não é literatura, não. Porque é a literatura que parece ter algo a dizer, ainda que mínimo e mambembe, nessa arena de horrores, nesse telecatch estupidamente verdadeiro, em que o real da TV vacila.
É a literatura que diz algo assim: “Havia o cheiro do café e ele estava tão alegre e tão triste que faria uma nova frase para ser repetida por idiotas que acreditam em coisas como ‘Paris é uma festa’ ”.
Leia o(s) livro(s), se quiser.
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14/04/2007
18:43 As pústulas do Senhor

"A Crucificação" (1517), Matthias Grünewald
Primeiras linhas de um texto maior, talvez um romance
As lágrimas dela caíram no primeiro dia. Deve ter sido por isso que o casamento, o da carne, não se consumou. Não eram apenas lágrimas. Darlete chorava sangue, conforme a família pôde escancarar num programa de TV. “São lágrimas de Cristo”, disse ela, um dia, enquanto tentava se desvencilhar de uma suas visões.
As visões de Cristo não eram propriamente dolorosas. Tampouco as de Nossa Senhora. As outras viriam depois.
Darlete devia ter uns 20 anos quando o pesadelo começou. O colégio acabou uns dois anos antes. A vida do pai acabou pouco antes do casamento. A paciência do marido acabaria uns cinco anos depois.
Quando as lágrimas de sangue caíram no primeiro dia, alguma coisa já vacilou naquela casa. Mas uns 1.400 dias ainda se desenrolariam até a internação se consumar. Isso lá pelos idos dos anos 90.
“Lágrimas de Cristo, droga!”, ela gritava, como uma herege e apóstata.
Foi então que vieram as visões das cobras.
Com a mão no cabelo preto da cabeça de Darlete, na capela do hospital, o frade disse que o constrangimento é uma forma de pecado, porque, afinal, o constrangimento é uma extensão da vaidade (a nossa e a dos outros). “A urina, a frase dura, as fezes”, disse o frade, com ligeiro sotaque calvinista, “tudo isso é o humano; a verdadeira glória é do Senhor”.
Dali a pouco, a enfermeira trocaria as roupas molhadas de Darlete e, depois, a acompanharia no sono, para assegurar que as cobras, não, as cobras não viriam desta vez. Mas o sofrimento não se curva à promessa.
“Ali”, gritaria Darlete às 2 da madrugada.
Foi então que vieram as visões de um homem qualquer.
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12/04/2007
09:28 Três mil
 "Four Views of a Book Press" - Foto: 802 - licença CC
Não sei se foi por causa da estréia de “300” (o milionário filme com o Rodrigo Santoro) no país, que me veio à cabeça a lembrança dos “3 mil”. Explico-me. O escritor paulista Marçal Aquino, tempos atrás, em uma palestra no Museu Abílio Barreto, em BH, falou da “seita dos 3 mil”.
“Quando escrevo”, disse, “sei que estou escrevendo para a seita dos 3 mil”. Ele se referia ao pífio mercado do livro no Brasil, onde é raridade uma edição ultrapassar essa marca de exemplares, porque a expectativa de leitura é mínima.
Marçal, não sei se em defesa de alguma estratégia de ampliação do público, citou um artigo do poeta José Paulo Paes, que, apesar de uma trajetória de diálogo estreito com a vanguarda poética, defendia o lugar de certa literatura de entretenimento. “Certos escritores acham que são James Joyce”, disse Marçal, referindo-se à escritura difícil, radical e única do irlandês.
Só faço referência a esse papo todo para fazer um elogio à “seita dos 3 mil”, em cuja liturgia mergulhei bem no fundo esses dias, ao pegar de empréstimo na biblioteca pública municipal de Monlevade o trabalho “Livros” (edição de 2002), reunião de fotos de 28 livros-objeto do artista plástico carioca Waltercio Caldas, em 30 anos de carreira.
Poder demorar os olhos em peças como “O Livro Velazquez” ou o “Livro para Ingres” é poder se sentir bem no fundo do templo da “seita dos 3 mil”, a curtir uma espécie particular de entretenimento secreto, à espreita em uma das estantes da Biblioteca Pública Municipal Assis Chateaubriand.
O velho poeta Mallarmé dizia que tudo existe para acabar em livro, afirmação que o paulista Augusto de Campos atualizaria, criticamente, em um poema-homenagem ao mestre francês: “ah mallarmé / a carne é triste / e ninguém te lê / tudo existe / para acabar em tv”.
Antes que tudo acabe em TV, dá tempo para refestelar-se na ecologia cultural de “Livros”, de Waltercio Caldas. Afinal, como disse Nelson Ascher, livros (ah, celulose!) ainda dão em árvores.
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04/04/2007
12:13 O dono dos cinemas
 Museo Nacionale del Cinema - Foto: Mirko - licença CC
Fernando Zallio, morador de Belo Horizonte, ostenta um pioneirismo: foi o diretor do primeiro filme de sexo explícito mineiro, “Horrores do Sexo”, longa-metragem de 1989, estrelado pela empregada doméstica dele próprio. Mas ele não está neste blog por esse motivo.
Zallio é o tipo do cara que costumamos chamar de cidadão comum, mas tem uma história bastante peculiar e acabou se transformando em personagem do documentário premiado “O Dono do Cinema”, de Fábio Carvalho.
Eu conheci Fernandão (seu apelido) em 1993, em meus tempos de vida em BH. Ele mantinha um cineclube, de nome “Bethânia”, no bairro Cachoeirinha, na capital mineira, onde oferecia, principalmente, filmes B para a vizinhança, mas, de vez em quando, projetava na telona jóias cinematográficas como “Johnny Guitar”, de Nicholas Ray.
O detalhe é que o “Bethânia” era a sexta sala de cinema de uma série aberta por ele, em diversos bairros da cidade, numa persistente trajetória de nascimento e morte. E tudo isso sem nem um centavo de leis de incentivo ou qualquer coisa do gênero.
A história começou por causa do pai, José Zallio, que consertava projetores cinematográficos. Por influência paterna, Fernando interessou-se loucamente pela sétima arte e, sem nunca ter freqüentado nenhuma escola do ramo, aventurou-se em ator, diretor e produtor de vários filmes com títulos típicos da boca do lixo de São Paulo, como “Amor Criminoso”, “Desforra em Sexta Dimensão”, ou “Sexo Primitivo”, recheados de alunos de cursos de cinema que ele ousou ministrar. E o resto da energia foi para as salas de exibição citadas acima. Sua fonte de renda era o comércio de filmes virgens de 16 milímetros e a vida de músico na noite belo-horizontina.
Lembro de Fernando Zallio aqui para mostrar como, muitas vezes, fazemos pouco demais ou nada, encolhidos atrás de um chororô qualquer. É preciso grana, sim, é verdade, mas, sem querer dar uma de roteirista daquela série comercial “Gente que Faz”, um tantinho de ousadia faz muita diferença. Os cinemas de Zállio fecharam as portas, mas, enquanto estiveram abertas, o recado ficou lá, escancarado na telona pra todo mundo ver.
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29/03/2007
10:08 O Império e as raízes
 Foto: Broderick - licença Creative Commons
Compadre Nei Lopes, o sambista, escreveu um artigo bacana em seu blog, no último domingo, intitulado “A Fazenda de Santa Cruz e os Pontos de Cultura”. Nei discorre sobre uns achados do livro “As Barbas do Imperador”, de Lília M. Schwarcz, historiadora que entrevistei anos atrás para abordar justamente essa obra.
“As Barbas...” trata da invenção do imperador, isto é, do projeto de construção da imagem do filho barbudo de D. Pedro I como intelectual e mecenas, dentro da estratégia de fortalecimento de monarquia. Já o artigo de Nei trata é de outra coisa, a saber, do relato de Lília sobre as bandas de música de escravos, criadas pelos senhores para exibição do próprio poder.
Vai aí um trechinho do artigo do sambista: “... em 1818 a Banda de Santa Cruz foi incrementada. E na década de 1830 o conjunto contava com 6 cantoras e 30 instrumentistas, destacando-se entre estes o flautista Antônio José que, cerca de trinta anos depois, por obra e graça de seu talento e sua arte, seria alforriado por Sua Majestade, o velho de barbas brancas.”
Nei continua: “O livro, é claro, não conta o que aconteceu com as bandas de escravos após a Abolição. Mas sabemos que a experiência frutificou em estabelecimentos públicos de ensino profissionalizante destinados a jovens carentes (...)”.
No finalzinho, o compadre exalta esse “tempo bom” em que “que a garotada, se quisesse, aprendia música à vera, sem caô, de verdade” e critica o programa “Pontos de Cultura do Brasil”, do MinC, por destinar verbas públicas a “montagens de fábrica ‘de hip-hop’ ”. E é aí que discordo do Nei. Não pelo louvor a um tempo em que negros eram obrigados a tocar música européia para ostentação de elites, já que a música era boa e muito músico bom nasceu daí, mas pelo fato do sambista, à maneira do mestre pernambucano Ariano Suassuna, se apegar a um purismo que, creio, toma por rasteiro o que, a seus olhos, não é genuíno, “de raiz”. Mas raízes, compadres, também crescem nas pick-ups de DJs.
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20/03/2007
17:41 Agonias
 Foto: Irina Souiki - licença Creative Commons
A tradução que a “Folha Online” fez de uma matéria da Ansa (agência de notícias italiana), publicada na última terça-feira, diz assim: “O Dia Mundial da Poesia, instituído pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), será celebrado nesta quarta-feira (21), com homenagens ao poeta afegão Jalal al Din Rumi, que, neste ano, comemora 800 anos de nascimento.”
A expressão “que, neste ano, comemora 800 anos de nascimento” sem querer deu ao leitor a possibilidade de imaginar que Jalal continua aí, bem vivo, como um Matusalém de poemas. E isso me fez pensar em coisas como sobrevivência e morte. De arte, não de gente.
Várias edições atrás, escrevi sobre o fim das coisas. Mas a sobrevivência da arte da poesia, com um minguado público que quase cabe em um monociclo, deixa sempre em relevo uma afirmação do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989) à revista paulistana “Escrita”, nos anos 80. Ele disse que, na cultura contemporânea, nada morre, apenas agoniza. Outras pessoas devem ter dito isso ou algo parecido, mas é dele que me lembro agora. Agonia. Esse mundo pós-tudo está menos prenhe de mortes do que de agonias.
A milenar arte da poesia já não tem pregnância social, terminologia pomposa que, aqui, significa apenas que a poesia já não encontra uma demanda significativa na sociedade, imersa em outras manifestações culturais que exigem menos silêncio e decifração. Diante da maioria das pessoas, a poesia se vê na mesma situação das nuvens brancas do poema do Leminski: “nuvens brancas/ passam/ em brancas nuvens”.
Arte encantoada, cultivada pelos amantes de sebos e miudezas sensíveis, marginal num universo de barulho e pressa. Não morre, mas vive à míngua, sustentada apenas por duas mãos e um sentimento do mundo.
Mas os poetas não se cansam e continuam a tentar levar adiante, com seu sopro, a poesia, não tanto em sua suposta casa própria, o livro, mas, sim, hospedada em outras artes. Uma inquilina que não chega a ser indesejada, mas a muitos ouvidos permanece incômoda onde quer que esteja, arfante como um tuberculoso, agonizante.
De qualquer forma, ela não morre, não. E o suporte que mais a tem sustentado, há anos, é a voz. É ali que ela permanece com o mais sólido filete de vida: nas poéticas da vocalidade. Guarde aí: poéticas da vocalidade. Disso falarei depois, destrinchando um pouquinho de “A letra e a voz”, de Paul Zumthor. Como homenagem atrasada ao Dia Mundial da Poesia.
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18/03/2007
16:57 Primeira-dama do Trombone
Foto: Chris Darling - licença Creative Commons
Clique aqui e confira a história da monlevadense Andréa de Carvalho.
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15/03/2007
07:16 Territórios
Foto: Bryce Edwards - licença Creative Commons
Sábado passado, eu estava em uma lan-house próxima à Praça do Lindinho, quando ocorreu um assalto em frente a uma agência bancária. Um rapaz foi abordado por dois homens e, depois de ser imobilizado com uma “gravata”, ficou sem uma certa grana que, mais tarde, ele recuperou, porque a polícia acabaria por achar um dos ladrões. O fato foi noticiado nos jornais da cidade.
Eram mais ou menos 14 horas, o sol estava quase no meio do céu (um tanto para lá, um tanto para cá, é verdade), a cidade era do interior: Monlevade. Algumas pessoas já haviam lido na imprensa nacional algo sobre interiorização do crime.
Então, eu me lembrei de uma coisa chamada território. Nenhum conceito abstrato, sobre o qual eu vá discorrer para ficar bem longe da cena do crime: a Praça do Lindinho ou qualquer outro lugar. Não.
Em 1999, assisti a uma palestra do baiano Muniz Sodré, um dos grandes pensadores brasileiros da comunicação. Ele falava sobre o poder da mídia, e o tema derivou para certas conseqüências da globalização. E o que globalização tem a ver com a Praça do Lindinho ou o crime que relatei? Nada. O que tem a ver foi sua reflexão sobre certa flagilização da noção de território, da idéia de pertencimento a um lugar, flagilização essa que o nomadismo do capital nos tempos neoliberais impôs ao mundo. E Muniz, ainda que não explicitamente, se reportava a palavras do geógrafo Milton Santos (1926-2001), defensor de uma recuperação da territorialidade, da valorização de nossos espaços concretos.
Pegando a deixa de Muniz e Milton, em tom menor (mais ajustado à minha medida), eu diria que estamos precisando ocupar criativamente alguns espaços, espaços assim, bem concretos, como certas praças que nossa cidade tem. E que, como nossa criatividade e determinação gestora não passeiam por lá, estão entregues ao crime ou ao nada, como uma terra de ninguém.
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